Agentes TransformadoresSe você é o tipo de pessoa que acredita que práticas como andar descalço sobre brasas ou vidros quebrados, quebrar tábuas e tijolos com o golpe das mãos ou ficar dias sem dormir ou comer estavam restritos ao mundo da televisão ou ficção, não se impressione ao saber que essas práticas estão ocorrendo em searas nunca antes imaginadas.

Em busca de soluções imediatas, enriquecimento, sucesso, resolução de problemas ou qualquer outro tipo de demanda, as pessoas se submetem a verdadeiros absurdos. E não estamos falando de religião, o foco aqui é o mundo dos negócios. Seja por fama, poder ou somente como prova social (ele fez, então eu também vou fazer), de pequenas a grandes organizações, verdadeiras insanidades coletivas são cometidas por meio cursos, palestras, treinamentos comportamentais e outros nomes que levam os participantes a situações-limite da mente, corpo e espírito.

Como exemplo, citem-se o presidente de uma transnacional que me relatou ter participado de um curso em que uma das provas era caminhar descalço pela praça da cidade para provar sua humildade. E ele, fez isso, mas por quê? Muitos homens e mulheres poderosos e inteligentes fazem a mesma coisa sem se dar conta da insensatez, o fazem de forma inconsciente e como prova social. E é isso exatamente que essa situação deseja provocar: uma irracionalidade coletiva.

Em um outro curso, uma colega se atirou de costas de uma marquise de 5 metros de altura para cair em queda livre no braço de outras pessoas para provar sua autoconfiança e o poder de seu pensamento positivo. Uma mulher influente, inteligente, que viajou pelo mundo todo me relatou isso de forma natural, apesar de lembrar que outros hóspedes do mesmo hotel onde ocorria o curso, ameaçaram chamar a polícia pois disseram que aquilo era uma verdadeira loucura. Mas os participantes do evento achavam tudo perfeitamente normal, em uma espécie de transe coletivo, sentiam-se ajustados e “em casa”. Ela mesma achou o curso muito interessante e “transformador”, em suas palavras.

Essas situações provocam um transe coletivo que não dura somente naquele momento, as pessoas podem não se dar conta do que realmente viveram nem mesmo daqui a muitos anos. E quando essas pessoas estão nele, não há como argumentar. Carl Jung há 40 anos atrás já alertava para esse colapso: “uma argumentação racional é apenas possível e profícua quando as emoções provocadas por alguma situação não ultrapassam determinado ponto crítico”. Pois quando a temperatura afetiva se eleva para além desse nível, a razão perde sua possibilidade efetiva, surgindo em seu lugar devaneios e desejos quiméricos, isto é, uma espécie de possessão coletiva que, progressivamente, conduz a uma epidemia psíquica.

As pessoas que participam desses grupos depositam suas esperanças de uma vivência dependente na aglomeração de pessoas que sentem o mesmo desejo. Quando elas se deparam com algum problema na sua vida ou empresa, buscam a referência naquele momento prazeroso (onde se sentiram poderosas), como não encontram aquilo na vida real, procuram novamente pela sensação junto a outros que também experimentaram esses devaneios. E assim, procurarão sempre por essa mesma sensação, criando uma espécie de vício.

Se por um lado temos as pessoas que participam dessas práticas, temos as pessoas que as promovem, e diferente das primeiras, essas últimas sim, sabem o que fazem, porque o fazem e aonde querem chegar (geralmente as motivações são o dinheiro, fama e poder). Têm consciência da inconsciência de outras pessoas. Isso nos lembra Jim Jones, um líder e mentor insano de uma seita que provou suicídio em massa da comunidade de Jonestown, na Guiana Francesa em 1978, com o resultado de 918 mortes, em sua maioria por envenenamento. Naquela ocasião as mães envenenaram e viram seus filhos morrerem em seus braços, acreditando que faziam a coisa certa. Que tipo de pessoa faz isso e acha normal? Certamente alguém sem compreensão de si mesmo, guiada pelo mundo externo, que se deixa levar pelas circunstâncias por mais absurdas e horríveis que elas sejam pois para elas, são normais. Nessa situação desaparece o amor, e onde acaba o amor, tem início o poder, a violência e o terror.

Jim Jones, assim como outros pseudo-líderes, treinadores comportamentais e mentores de escolas de coaching, de negócios e por aí afora, conhecem, por experiência própria, como provocar esses estados e sabem lidar com eles. Para Jung, seus devaneios baseados em sentimentos fanáticos, fazem apelo para a irracionalidade coletiva, encontrando aí um solo frutífero […] esses indivíduos, apesar de constituírem um número pequeno em relação ao conjunto da população, representam um grande perigo, pois são fontes infecciosas sobretudo em razão do conhecimento limitado que as pessoas possuem de si mesmas. Faria muito bem ao mundo, confrontar essas pessoas que falam em ideais se ele mesmo é ideal, afim de que seus atos e palavras sejam mais do que parecem.

Ainda para Jung, a julgar pelo aumento da quantidade e do poder dessas pessoas, apesar de serem poucas, daqui a alguns anos, podem ser muitas e induzirem todos a coisas absurdas, acreditando ser normal e adequado. Situação pior é aquela em que mentiras são misturadas a situações reais criando uma confusão nas pessoas que não conseguem distinguir o que é racional do que não é. Essas pessoas continuam a se reunir alegremente, mas só podem persistir quando incorporadas na vontade de um líder que não se detém por nada e são capazes de influenciá-los facilmente.

O que podemos fazer? Novamente vamos recorrer à sabedoria de Jung: podemos ser agentes transformadores de pessoas singulares, as quais podem influenciar outros indivíduos igualmente sensatos de nosso círculo de influência e às vezes, do meio mais distante. Não nos referimos a algo teórico e não prático, “mas ao fato da experiência de que aquele que alcançou uma compreensão de suas próprias ações e, desse modo, teve acesso ao inconsciente, exerce, mesmo sem querer, uma influência sobre o seu meio”.

Por isso, em nossas formações não esperem encontrar danças em volta de fogueiras, abraçar árvores, quebrar flechas com o pescoço ou rachar madeira com o golpe das mãos. Pautamo-nos no conhecimento e respeitamos o nosso cliente, sua inteligência e o seu investimento.

Artigo inspirado em “Presente Futuro Livro 10/1” de Carl Jung. Parte desse artigo publicado na Coluna Painel Corporativo da Gazeta de Limeira, 25/10/2015

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