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Burnout e boreout: tratá-los simplesmente como opostos é uma simplificação que pode levar a interpretações equivocadas.
O boreout está relacionado à subestimulação no trabalho, ao tédio e à sensação de estagnação. Mas como ele se diferencia do burnout, tema já mais conhecido nas organizações?
De forma didática, podemos começar pelas principais diferenças apresentadas na tabela a seguir:
| Aspecto | Burnout | Boreout |
| Problema predominante | Demandas excessivas e estresse crônico relacionado ao trabalho | Subestimulação, tédio, baixo significado ou crescimento |
| Experiência característica | Exaustão e distanciamento | Tédio, desinteresse e estagnação |
| Relação com demandas | Pode estar associado a demandas excessivas (sobrecarga de trabalho) | Pode estar associado a baixos desafios e subcarga de trabalho |
| Possível resultado |
Prejuízo ao bem-estar e ao vínculo com o trabalho |
|
Embora o resultado possa ser semelhante (prejuízo ao bem-estar e ao vínculo com o trabalho), os caminhos que levam a ele são diferentes. Além disso, a realidade organizacional é mais complexa do que a tabela pode demonstrar.
Por exemplo, uma pessoa pode ter muito trabalho e pouco desafio intelectual ao mesmo tempo.
Imagine alguém que precisa processar centenas de operações praticamente idênticas todos os dias. Existe uma grande demanda quantitativa, mas baixa variedade e pouca oportunidade de utilizar outras competências.
Sobrecarga e tédio, portanto, não precisam ser mutuamente exclusivos.
Para a gestão dos riscos psicossociais, isso reforça a importância de olhar não apenas para a quantidade de trabalho, mas também para a forma como ele é organizado e vivenciado.
Além disso, há uma diferença importante: boreout não é um diagnóstico clínico.
Inicialmente, é importante utilizar o termo com rigor. VAmos reforçar que boreout não é apresentado como um diagnóstico clínico. Portanto, não é utilizado como diagnóstico ou como justificativa direta para um afastamento por doença. Eventuais afastamentos dependem da existência e da avaliação adequada de uma condição de saúde.
A literatura científica sobre o fenômeno cresceu, mas sua conceituação e mensuração ainda precisam ser mais investigados pois o termo é relativamente recente em relação aos outros construtos tradicionais da psicologia do trabalho.
Por isso, uma organização não deveria concluir que um funcionário “tem boreout” com base em alguns comportamentos observados.
O mais adequado para a gestão é investigar fatores concretos, como carga quantitativa, variedade das atividades, autonomia, significado, oportunidades de aprendizagem, utilização de competências, recursos disponíveis, tédio ocupacional e percepção de crescimento.
Essa abordagem é mais útil para a gestão porque transforma um rótulo abstrato em condições de trabalho que podem ser analisadas e, quando necessário, modificadas.
Para líderes, portanto, o ideal é que o trabalho utilize capacidades, proporcione desafios adequados e permita desenvolvimento, deixando clara a contribuição de cada um.
Assim, a atuação da liderança é importante tanto na prevenção do boreout quanto na identificação de condições de trabalho que podem afetar o bem-estar e a saúde mental das equipes.
A questão não principal vai além de redistribuir tarefas, inclui, principalmente, compreender por que o trabalho deixou de estimular aquela pessoa ou equipe.
Em muitas atividades, principalmente as industriais, a repetição faz parte do processo e nem sempre pode ser eliminada. Nesse caso, o líder pode atuar no que está ao seu alcance como por exemplos:
Nem sempre será possível mudar a tarefa. Mas é possível melhorar a forma como o profissional participa, aprende e percebe sua contribuição para o processo.
Referências científicas selecionadas
Stock, R. M. (2015). Is Boreout a Threat to Frontline Employees’ Innovative Work Behavior? Journal of Product Innovation Management, 32, 574–592. DOI: 10.1111/jpim.12239.
Harju, L.; Hakanen, J. J.; Schaufeli, W. B. (2014). Job boredom and its correlates in 87 Finnish organizations. Journal of Occupational and Environmental Medicine, 56(9), 911–918. DOI: 10.1097/JOM.0000000000000248.
Poirier, C.; Gelin, M.; Mikolajczak, M. (2021). Creation and Validation of the First French Scale for Measuring Bore-Out in the Workplace. Frontiers in Psychology, 12, 697972.
Kawada, M. et al. (2024). Boredom and engagement at work: do they have different antecedents and consequences? Industrial Health, 62(2), 110–122.



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