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Gestores centralizadores, colaboradores estagnados, organizações dependentes.
Quando todas as decisões precisam passar pelo gestor, a equipe pode até parecer organizada. Com o tempo, porém, essa centralização produz profissionais menos preparados para pensar, decidir e assumir responsabilidades.
Forma-se um paradoxo: quanto mais o gestor intervém para garantir que tudo funcione, menos a equipe desenvolve condições para funcionar sem ele. É assim que o controle necessário à gestão pode se transformar em microgestão.
Acompanhar o trabalho, definir critérios e verificar resultados são responsabilidades da liderança. A microgestão começa quando o gestor interfere em decisões que poderiam ser tomadas pela equipe e determina não apenas o que deve ser entregue, mas como cada etapa deverá ser executada.
Esse comportamento pode estar associado ao medo de erros, ao perfeccionismo, à dificuldade de confiar ou à crença de que fazer pessoalmente é mais rápido e seguro.
Quando o gestor se torna a resposta para tudo, a equipe deixa de aprender a construir respostas.
No curto prazo, essa atuação pode transmitir eficiência. No longo prazo, cria uma cultura de dependência que se manifesta tanto no comportamento do gestor quanto no da equipe.
A equipe pergunta, o gestor responde. Surge um problema, o gestor resolve. Uma decisão precisa ser tomada, todos aguardam sua aprovação. Até uma simples compra na padaria depende de sua autorização.
Aos poucos, nada parece funcionar sem a presença da liderança. Quando o gestor se ausenta, continua sendo acionado, mesmo em momentos de lazer e de férias. Demandas ficam paradas e decisões são adiadas à espera de seu retorno.
O que parece demonstrar sua importância revela uma fragilidade organizacional: conhecimento, autoridade e capacidade decisória ficaram concentrados em uma única pessoa.
Quanto menor a autonomia da equipe, maior sua insegurança para decidir. Quanto maior a insegurança, mais ela recorre ao gestor. E, quanto mais é procurado, mais ele acredita que precisa controlar, confirmando para si mesmo a ideia de que “nada acontece sem ele”.
A dependência nem sempre resulta da falta de iniciativa. Às vezes, é consequência de uma iniciativa repetidamente desencorajada.
Por isso, antes de considerar um colaborador acomodado, é preciso examinar se o próprio modelo de gestão permite que ele desenvolva iniciativa e proatividade.
As pessoas desenvolvem competências quando enfrentam desafios, analisam situações, experimentam alternativas, recebem feedback e aprendem com suas decisões.
Se o gestor entrega todas as respostas e assume os problemas, o colaborador pode executar tarefas, mas encontra poucas oportunidades para desenvolver julgamento, criatividade, autoconfiança e capacidade decisória.
A Teoria da Autodeterminação, desenvolvida pelos psicólogos e pesquisadores Edward Deci e Richard Ryan, reconhece autonomia, competência e relacionamento como necessidades psicológicas básicas. Ambientes excessivamente controladores podem enfraquecer a qualidade da motivação, ainda que obtenham obediência ou desempenho imediato.
Oferecer respostas é diferente de desenvolver a capacidade de encontrá-las.
Nesse sentido, o coaching, quando conduzido de forma qualificada, utiliza perguntas, reflexão e responsabilização para que a própria pessoa analise possibilidades e construa respostas adequadas à sua realidade. Aplicada à liderança (líder coach), essa abordagem contribui para desenvolver autonomia, discernimento e capacidade decisória, sem retirar o suporte do gestor.
A restrição persistente da autonomia, portanto, não limita apenas a aprendizagem. Também pode aumentar a tensão e comprometer o bem-estar no trabalho.
Autonomia não significa ausência de liderança ou liberdade irrestrita. Significa oferecer às pessoas espaço compatível com suas responsabilidades e competências para organizar o trabalho, participar de decisões e escolher como alcançar os resultados.
O modelo Demanda–Controle, desenvolvido por Robert Karasek e posteriormente ampliado por Töres Theorell, ajuda a compreender essa relação. A combinação entre demandas elevadas e baixo controle sobre o trabalho está associada a maior tensão e risco de desgaste.
A falta de autonomia também está entre os possíveis fatores de riscos psicossociais relacionados à organização do trabalho. Isso não quer dizer que toda supervisão seja prejudicial. O problema está na restrição excessiva e contínua do espaço para decidir, participar e utilizar as próprias competências.
Quando as pessoas também percebem que discordar, propor alternativas ou comunicar erros pode gerar consequências negativas, a centralização passa a afetar a segurança psicológica.
Amy Edmondson demonstrou que a segurança psicológica favorece comportamentos de aprendizagem, como fazer perguntas, admitir erros, pedir ajuda e apresentar ideias.
Em ambientes nos quais as iniciativas são constantemente desqualificadas ou as decisões dos colaboradores são anuladas, as pessoas aprendem que é mais seguro aguardar instruções.
O colaborador pode parecer acomodado quando, na realidade, compreendeu que pensar de maneira diferente tem um custo. Para modificar essa dinâmica, não basta dizer que a equipe possui autonomia. É necessário mudar a maneira como a liderança reage às ideias, às divergências e aos erros.
Romper esse ciclo não significa substituir controle por abandono e nem “delargar”.
O gestor precisa deixar de concentrar todas as respostas e passar a ampliar a capacidade de análise da equipe. Em vez de assumir imediatamente um problema, pode utilizar a técnica das perguntas profundas do coaching:
Também é importante estabelecer quais decisões o colaborador pode tomar, quais precisam ser comunicadas e quais realmente exigem aprovação. A autonomia deve crescer à medida que competência e confiança se desenvolvem.
Organizações prósperas, sustentáveis e perenes não podem depender de poucas pessoas para pensar, decidir e resolver.
O valor da liderança não está em tornar-se indispensável, mas em formar profissionais capazes de agir com competência, responsabilidade e discernimento, inclusive na ausência do gestor.
Quando há clareza, autonomia, suporte e segurança para aprender, o gestor deixa de acumular decisões e passa a multiplicar capacidades. Assim, desenvolve as pessoas e fortalece a organização para os desafios presentes e futuros.
Gestores centralizadores acumulam decisões. Líderes que desenvolvem pessoas multiplicam capacidades.



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